quarta-feira, 7 de outubro de 2009

MATA

Olá, meu nome é Girondino. Nasci e cresci fora de casa, e ainda carrego no corpo as marcas da enxada e de um sol desanimador. Minha mãe sempre foi lavadeira, e meu pai, peão agricultor. Vivíamos de pequenas plantações. Meu pai, vivia só da cana...
Dona Jací,
Vim a essa terra pelo chamado de uma fada. Fada que encanta, com seu cheiro, barulho e frescor. Doce e prateada, ela chega de fininho. Aos poucos espalha brilho e vida, compondo o cenário de grandes oportunidades para qualquer coitado que venha do interior.
Porém, mais um dia se passa... Do céu, resta pouco. Sinto-me sufocado. Todas as pessoas parecem estar contaminadas. Suas expressões faciais são cada vez mais fechadas, e chegam a se confundir com as paisagens das grandes fachadas. Os olhos só refletem, parecem não convergir coisa alguma.
Aqui a terra é incorporada. Esvaece-se no ar, adentrando nos pulmões aflitos de cada ser. O que deveria ser verde é cinza, e o que tem vida, logo morre. A morte que pra mim era negra, aqui é vermelha, e escorre.
Vivemos, sobrevivemos. Mas a vida aqui está solidificada, ou melhor esfumaçada. Aqui nada se pode dar, a não ser boas engasgadas. As cores, quase se perdem e os movimentos dos seres se dão sobre trilhos. O que se encontra em uma esquina é o que se vê na outra e é assim que aqui se conduz a vida, na constância de uma grande redoma empoeirada.
Aqui nosso padre é recluso e nossa santa não é santa. Pra tudo, se tem uma resposta. Há de se tomar cuidado, pois existe uma forte correnteza que passa e te leva. Lá se vão às crenças, os amores e as memórias.
Para os olhos de um pobre interiorano as regras aqui já foram enraizadas. Todos vivem a vida como se ela estivesse engaiolada. Os que poderiam trazer a vida de volta já estão cegos, e suas idéias, já estagnadas. Quem vem de fora se assusta, mais percebe... “Em terra de ninguém, alguém pode não fazer nada”.
Sua benção,
Girondino.

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