segunda-feira, 2 de novembro de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Anúncio Álcool X Direção

A sorte estava sempre ao meu lado. Claro que eu aproveitava de minha sorte para brincar com minha vida. Sair era o meu divertimento que só teria fim ao amanhecer com um copo de bebida na mão e a chave do carro. Todas às noites eram as mesmas. Eu sabia que direção e bebida não eram um par perfeito, como minha mãe dizia, mas meus amigos faziam, por que eu não? Por que é anti-ético beber e dirigir? Sim é, mas na minha vida, as leis não eram seguidas. Acidentes sofri poucos, mas provoquei um ... Ontem sai como qualquer outro dia, bebida, carro.... 
Só lembro que acordei não para a vida mas para voltar e dizer que não cometam o mesmo erro que cometi.
Lívia Passos de Souza

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Encontro

Hoje acordei e não me encontrei. Tomei calmamente um belo café da manhã, arrumei a minha cama e tomei até um banho gelado. Depois, coloquei gel no cabelo para firmar o meu penteado. O que será do resto do meu dia? Será que estou mesmo acordado?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

MATA

Olá, meu nome é Girondino. Nasci e cresci fora de casa, e ainda carrego no corpo as marcas da enxada e de um sol desanimador. Minha mãe sempre foi lavadeira, e meu pai, peão agricultor. Vivíamos de pequenas plantações. Meu pai, vivia só da cana...
Dona Jací,
Vim a essa terra pelo chamado de uma fada. Fada que encanta, com seu cheiro, barulho e frescor. Doce e prateada, ela chega de fininho. Aos poucos espalha brilho e vida, compondo o cenário de grandes oportunidades para qualquer coitado que venha do interior.
Porém, mais um dia se passa... Do céu, resta pouco. Sinto-me sufocado. Todas as pessoas parecem estar contaminadas. Suas expressões faciais são cada vez mais fechadas, e chegam a se confundir com as paisagens das grandes fachadas. Os olhos só refletem, parecem não convergir coisa alguma.
Aqui a terra é incorporada. Esvaece-se no ar, adentrando nos pulmões aflitos de cada ser. O que deveria ser verde é cinza, e o que tem vida, logo morre. A morte que pra mim era negra, aqui é vermelha, e escorre.
Vivemos, sobrevivemos. Mas a vida aqui está solidificada, ou melhor esfumaçada. Aqui nada se pode dar, a não ser boas engasgadas. As cores, quase se perdem e os movimentos dos seres se dão sobre trilhos. O que se encontra em uma esquina é o que se vê na outra e é assim que aqui se conduz a vida, na constância de uma grande redoma empoeirada.
Aqui nosso padre é recluso e nossa santa não é santa. Pra tudo, se tem uma resposta. Há de se tomar cuidado, pois existe uma forte correnteza que passa e te leva. Lá se vão às crenças, os amores e as memórias.
Para os olhos de um pobre interiorano as regras aqui já foram enraizadas. Todos vivem a vida como se ela estivesse engaiolada. Os que poderiam trazer a vida de volta já estão cegos, e suas idéias, já estagnadas. Quem vem de fora se assusta, mais percebe... “Em terra de ninguém, alguém pode não fazer nada”.
Sua benção,
Girondino.

sábado, 26 de setembro de 2009

Espelho

Heloisa Seixas:
Durante anos, planejaram construir a casa. O terreno no Joá fora comprado pouco depois de se casarem, a prazo, mas já estava quitado quando a construção começou. Como ficava na encosta, debruçado sobre o mar do Rio, o casal decidiu fazer a casa toda de madeira e vidro. Acima de tudo, vidro. Assim, poderiam aproveitar de forma plena a beleza da paisagem, que atravessaria as paredes translúcidas e lhes alcançaria as retinas o tempo todo, noite ou dia. A idéia fora da mulher que, embora com outra formação, era arquiteta vocacional.
Fizeram uma longa pesquisa em busca da madeira ideal, de diferentes tipos para cada pedaço da casa, incluindo dormentes comprados em depósitos de demolição e toda sorte de toras, caibros, ripas. Pesquisaram muito também antes de encomendar os vidros, temperados para resistir à força do vento, que ali, na encosta sobre o mar aberto, às vezes uivava ameaçador.
A obra, como todas as obras, durou meses. Mais do que meses, quase dois anos. Foi um período desgastante, com muitas brigas, discussões, frustrações, esperanças. Na hora dos acabamentos, pensaram que seria mais fácil, mas na verdade foi pior. E mal acreditaram quando a casa finalmente ficou pronta.
Só que não se mudaram logo. Fizeram questão de comprar tudo novo, cada peça utilitária ou de decoração - o que também levou tempo. Mas queriam que a casa tivesse a marca de uma nova fase, de um recomeço, e só entrariam nela para morar quando todos os novos móveis, eletrodomésticos, enfeites, tapetes estivessem lá. Compraram tudo. Tudo menos cortinas. Porque tinham decidido que na casa de vidro não haveria cortinas, para não perderem a paisagem nem por um instante.
E então chegou o dia da mudança. Logo de manhã, com os carregadores entrando e saindo numa balbúrdia sem fim, já começou a sensação estranha. Os dois, marido e mulher - embora nada comentassem um com o outro -, foram tomados por uma inquietação. Não sabiam por quê. Era alguma coisa latejando no fundo, disfarçada, na qual não tiveram muito tempo para pensar, em meio à confusão da mudança. Foi só à noite, quando tudo já estava arrumado, quando todos se foram e ficaram só os dois, que eles começaram a entender. Com a chegada da noite, quando a luz exterior morreu, todos os vidros que os cercavam passaram a refletir o interior da casa - como um único e onipresente espelho.
Ainda sem nada comentar um com o outro, homem e mulher vagaram pela casa, fazendo os últimos acertos, trocando objetos de lugar, rearrumando livros. Mas, por onde andassem, sempre que erguiam o rosto, davam com a própria imagem refletida nos vidro. E, quase sem sentir, baixavam os olhos. O silêncio entre eles pesava, o rumor das ondas lá embaixo, nas rochas, resvalava em seus nervos expostos, como se ralasse uma ferida.
Não demorou muito para que os dois compreendessem: na casa de vidro, tinham-se tornado prisioneiros. Prisioneiros de seus próprios rostos, que do espelho das paredes miravam-nos todas as noites sem piedade, lançando-lhes na cara a crua verdade do vazio em que viviam, sua própria infelicidade, o casamento acabado - em uma vigilância constante e implacável.