Heloisa Seixas:
Durante anos, planejaram construir a casa. O terreno no Joá fora comprado pouco depois de se casarem, a prazo, mas já estava quitado quando a construção começou. Como ficava na encosta, debruçado sobre o mar do Rio, o casal decidiu fazer a casa toda de madeira e vidro. Acima de tudo, vidro. Assim, poderiam aproveitar de forma plena a beleza da paisagem, que atravessaria as paredes translúcidas e lhes alcançaria as retinas o tempo todo, noite ou dia. A idéia fora da mulher que, embora com outra formação, era arquiteta vocacional.
Fizeram uma longa pesquisa em busca da madeira ideal, de diferentes tipos para cada pedaço da casa, incluindo dormentes comprados em depósitos de demolição e toda sorte de toras, caibros, ripas. Pesquisaram muito também antes de encomendar os vidros, temperados para resistir à força do vento, que ali, na encosta sobre o mar aberto, às vezes uivava ameaçador.
A obra, como todas as obras, durou meses. Mais do que meses, quase dois anos. Foi um período desgastante, com muitas brigas, discussões, frustrações, esperanças. Na hora dos acabamentos, pensaram que seria mais fácil, mas na verdade foi pior. E mal acreditaram quando a casa finalmente ficou pronta.
Só que não se mudaram logo. Fizeram questão de comprar tudo novo, cada peça utilitária ou de decoração - o que também levou tempo. Mas queriam que a casa tivesse a marca de uma nova fase, de um recomeço, e só entrariam nela para morar quando todos os novos móveis, eletrodomésticos, enfeites, tapetes estivessem lá. Compraram tudo. Tudo menos cortinas. Porque tinham decidido que na casa de vidro não haveria cortinas, para não perderem a paisagem nem por um instante.
E então chegou o dia da mudança. Logo de manhã, com os carregadores entrando e saindo numa balbúrdia sem fim, já começou a sensação estranha. Os dois, marido e mulher - embora nada comentassem um com o outro -, foram tomados por uma inquietação. Não sabiam por quê. Era alguma coisa latejando no fundo, disfarçada, na qual não tiveram muito tempo para pensar, em meio à confusão da mudança. Foi só à noite, quando tudo já estava arrumado, quando todos se foram e ficaram só os dois, que eles começaram a entender. Com a chegada da noite, quando a luz exterior morreu, todos os vidros que os cercavam passaram a refletir o interior da casa - como um único e onipresente espelho.
Ainda sem nada comentar um com o outro, homem e mulher vagaram pela casa, fazendo os últimos acertos, trocando objetos de lugar, rearrumando livros. Mas, por onde andassem, sempre que erguiam o rosto, davam com a própria imagem refletida nos vidro. E, quase sem sentir, baixavam os olhos. O silêncio entre eles pesava, o rumor das ondas lá embaixo, nas rochas, resvalava em seus nervos expostos, como se ralasse uma ferida.
Fizeram uma longa pesquisa em busca da madeira ideal, de diferentes tipos para cada pedaço da casa, incluindo dormentes comprados em depósitos de demolição e toda sorte de toras, caibros, ripas. Pesquisaram muito também antes de encomendar os vidros, temperados para resistir à força do vento, que ali, na encosta sobre o mar aberto, às vezes uivava ameaçador.
A obra, como todas as obras, durou meses. Mais do que meses, quase dois anos. Foi um período desgastante, com muitas brigas, discussões, frustrações, esperanças. Na hora dos acabamentos, pensaram que seria mais fácil, mas na verdade foi pior. E mal acreditaram quando a casa finalmente ficou pronta.
Só que não se mudaram logo. Fizeram questão de comprar tudo novo, cada peça utilitária ou de decoração - o que também levou tempo. Mas queriam que a casa tivesse a marca de uma nova fase, de um recomeço, e só entrariam nela para morar quando todos os novos móveis, eletrodomésticos, enfeites, tapetes estivessem lá. Compraram tudo. Tudo menos cortinas. Porque tinham decidido que na casa de vidro não haveria cortinas, para não perderem a paisagem nem por um instante.
E então chegou o dia da mudança. Logo de manhã, com os carregadores entrando e saindo numa balbúrdia sem fim, já começou a sensação estranha. Os dois, marido e mulher - embora nada comentassem um com o outro -, foram tomados por uma inquietação. Não sabiam por quê. Era alguma coisa latejando no fundo, disfarçada, na qual não tiveram muito tempo para pensar, em meio à confusão da mudança. Foi só à noite, quando tudo já estava arrumado, quando todos se foram e ficaram só os dois, que eles começaram a entender. Com a chegada da noite, quando a luz exterior morreu, todos os vidros que os cercavam passaram a refletir o interior da casa - como um único e onipresente espelho.
Ainda sem nada comentar um com o outro, homem e mulher vagaram pela casa, fazendo os últimos acertos, trocando objetos de lugar, rearrumando livros. Mas, por onde andassem, sempre que erguiam o rosto, davam com a própria imagem refletida nos vidro. E, quase sem sentir, baixavam os olhos. O silêncio entre eles pesava, o rumor das ondas lá embaixo, nas rochas, resvalava em seus nervos expostos, como se ralasse uma ferida.
Não demorou muito para que os dois compreendessem: na casa de vidro, tinham-se tornado prisioneiros. Prisioneiros de seus próprios rostos, que do espelho das paredes miravam-nos todas as noites sem piedade, lançando-lhes na cara a crua verdade do vazio em que viviam, sua própria infelicidade, o casamento acabado - em uma vigilância constante e implacável.